Fotos: Thais Immig (Diário)
Um evento climático, como as enchentes, não atinge todos da mesma forma. As perdas diferem entre bairros, famílias e grupos sociais, especialmente em áreas mais vulneráveis. A partir dessa premissa, a Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), em parceria com pesquisadores da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), apresentou o projeto “Justiça climática e resiliência comunitária: integrando saberes locais e governança de riscos para prevenção de desastres em Santa Maria”. A iniciativa busca mapear desigualdades e fortalecer estratégias de prevenção e resposta a desastres climáticos no município.
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O projeto foi apresentado durante o seminário “Impactos, Resiliência e Justiça Climática em Santa Maria”, realizado na tarde desta segunda-feira (11), no auditório do Centro de Ciências Sociais e Humanas (CCSH) da UFSM. A proposta pretende reunir relatos, dados e mapas para produzir um diagnóstico dos impactos das enchentes, com atenção às desigualdades, perdas e capacidades de resposta das comunidades. Segundo a professora da universidade e uma das coordenadoras do projeto, Franciele Agne Tybusch, o objetivo é ir além da identificação dos locais atingidos pelos eventos climáticos.
– Para o projeto, não basta perguntar onde alagou. É preciso identificar quem foi atingido, quais perdas sofreu, que cuidado recebeu e que proteção faltou. Enchentes podem gerar ferimentos, infecções, interrupção de medicamentos, perda de renda, deslocamentos, insegurança alimentar e sofrimento mental. O risco aumenta quando o evento extremo encontra moradia frágil, baixa renda, serviços distantes, redes de apoio insuficientes e menor capacidade de resposta – explicou.
O pesquisador epidemiologista da Fiocruz, Diego Ricardo Xavier, explica que a parceria surgiu a partir de discussões sobre justiça climática realizadas há cerca de um ano e pretende transformar a experiência de Santa Maria em referência para outros municípios brasileiros.
– A ideia do projeto aqui em Santa Maria, além de levantar dados e criar metodologia, é exportar essa expertise para outros municípios do Brasil. Santa Maria tem múltiplos cenários de risco. Há enchentes, alagamentos e deslizamentos de massa. Mas o Sul do país, de maneira geral, já possui um histórico recorrente de eventos climáticos extremos, o que faz com que os sistemas públicos estejam mais preparados e resilientes – avaliou.
Segundo o pesquisador, o município exerce papel estratégico na região, principalmente na área da saúde.
– Santa Maria é um polo regional. Se Santa Maria cai, cai a região toda. Por isso, é importante fortalecer a cidade e também os municípios do entorno para evitar sobrecarga no sistema de saúde – disse.
Como vai funcionar
A equipe do projeto inicia nesta semana uma etapa de capacitação e trabalho de campo. Conforme os pesquisadores, um questionário será aplicado com pessoas situadas em áreas atingidas no município. Serão perguntas sobre experiências em eventos climáticos, impactos, assistência e saúde. A coleta das informações terá início na quinta-feira, na localidade da Estação dos Ventos, no Bairro Km3. Depois disso, os dados serão organizados e poderão ser utilizados na criação de políticas públicas municipais voltadas à prevenção e mitigação de desastres.
Franciele, que irá coordenar o trabalho, ressalta que o foco principal é atuar antes que as tragédias aconteçam.
– Mais do que trabalhar no pós-desastre, queremos atuar na prevenção e mitigação. O pós normalmente exige políticas de recuperação e assistência. A nossa ideia é antever os riscos, ser mais proativo do que reativo – afirmou a professora da UFSM.
Seminário debateu prevenção e participação comunitária
O projeto foi apresentado durante um seminário que reuniu pesquisadores, representantes da prefeitura, docentes da UFSM e integrantes da sociedade civil para discutir os impactos das mudanças climáticas e estratégias de prevenção em Santa Maria. Participaram representantes das secretarias municipais de Habitação, Meio Ambiente, Saúde e Resiliência Climática, além de pesquisadores da área e líderes comunitários.
Durante o encontro, foram abordados temas como justiça climática, governança de riscos, políticas públicas de prevenção, comunicação em situações de desastre e educação comunitária. O secretário municipal de Resiliência Climática e Relações Comunitárias, Edson Roberto das Neves Júnior, que foi um dos palestrantes, destacou a importância da aproximação entre universidade, poder público e comunidades.
– A UFSM tem sido palco de discussões importantes sobre mudanças climáticas. Conseguimos reunir pesquisadores, secretarias municipais e a própria comunidade para pensar soluções conjuntas e fortalecer a construção de uma cidade mais segura e resiliente – afirmou.
Segundo ele, ouvir moradores das áreas afetadas é essencial para tornar as ações preventivas mais eficientes e ampliar a cultura da autoproteção.
– A comunicação é a ferramenta que mais salva vidas, porque consegue chegar a todos no menor tempo. Ouvir as pessoas e trazê-las para dentro do processo é fundamental – destacou.
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